Mais de um século de raízes

Uma quinta que não parou

O homem que começou tudo 

Em 1892, Caetano da Silva Luz toma conta da Quinta Grande. O título de Visconde de Coruche tinha chegado dezasseis anos antes, por Decreto do Rei D. Luís, como reconhecimento de uma vida dedicada à agricultura portuguesa. Mas foi aqui, neste vale do Sorraia, que as suas ideias ganharam terra.

Formado pelo Instituto Geral de Agricultura de Lisboa, o Visconde não era apenas um proprietário rural. Era um homem de ação: promoveu os primeiros congressos agrários em Portugal, representou o país na Exposição Universal de Filadélfia, presidiu à Companhia das Lezírias e foi ele quem impulsionou a abertura de um canal no rio Sorraia. Quando a crise cerealífera de 1886 abalou o país, foi a sua voz que liderou a defesa da lavoura nacional.

Na Quinta Grande, aplicou o que pregava. Introduziu castas como a Fernão Pires e a Trincadeira, experimentou técnicas modernas de vitivinicultura e, nos cereais, também se destacou, transformando a propriedade numa das mais referenciadas do Ribatejo. Em outubro de 1907, a Illustração Portugueza dedicou uma reportagem completa às vindimas da Quinta Grande, com fotografias do monte, dos trabalhadores e do próprio Visconde a cavalo no seu Gerardo. Um documento raro, que hoje faz parte do arquivo da família.

Morreu em Lisboa a 29 de dezembro de 1904, aos 62 anos, sem ter visto o projeto concluído. Mas a Quinta Grande continuou.

A quinta que continuou

Do legado do Visconde ao montado de sobreiro, da vacada Mertolenga às culturas tipicas da região, a Quinta Grande foi-se reinventando sem perder identidade. Cada geração encontrou a sua forma de honrar o que recebeu e de deixar algo mais. E nesta geração, a aposta é clara: tecnologia ao serviço da terra, energia renovável, práticas ecológicas certificadas e uma gestão que olha para o futuro sem virar as costas ao passado.

A casa principal, construída no início do século XX, continua habitada por familiares descendentes. O jardim que a rodeia é o mesmo. O monte ribatejano, com as suas casinhas de trabalhadores agrícolas, ainda cá está. O que mudou foi a forma de o receber.

Em 2021, a antiga casa do abegão foi totalmente restaurada para dar origem ao alojamento da Quinta Grande. Cinco quartos, espaços comuns generosos, cozinha partilhada e silêncio a sério. O espírito é o de sempre: quem entra pela porta da Quinta Grande entra em casa, e é tratado como tal. Essa forma de receber não se aprende, herda-se.

A quarta geração

Hoje, a Quinta Grande é gerida pela quarta geração, com uma gerência composta por um representante dos três ramos familiares.

A operação combina floresta certificada, produção agrícola, pecuária de raça autóctone e turismo de natureza. A aposta na energia fotovoltaica garante autonomia energética.

A gestão florestal segue princípios de regeneração natural e conservação da biodiversidade. Os hides de fotografia de vida selvagem são referência. Sustentabilidade aqui não é marketing, é o modelo de negócio.

O Visconde escolheu bem o lugar. A família fez o resto.